Por Rodrigo Caseiro

“O mundo não está preocupado com as tempestades que você encontrou. Só querem saber se você trouxe o navio”. (William McFee)

É inegável que vivemos em tempos bastante turbulentos da nossa história. As mudanças e, principalmente, a velocidade em que elas nos foram impostas, nos trouxeram uma sensação de falta de controle, ansiedade e incertezas frente a um mundo que, mesmo anterior a pandemia de coronavírus, já era bastante complexo e intenso.

Não à toa, como seres humanos que somos, já estávamos tentando classifica-lo como um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo. Era o mundo VUCA (acrônimo para os termos em inglês) e, lembro-me bem, o conceito estava ganhando repercussão e gerando bastante interesse no mundo corporativo, principalmente para os executivos de Recursos Humanos. Inclusive, gosto de lembrar que um dos últimos eventos presenciais que participei, ocorrido em fevereiro de 2020 a convite da ABPRH, foi justamente para compor um painel de debates sobre o tema.

Entretanto, como em um piscar de olhos, aquele mundo VUCA sobre o qual estávamos tentando analisá-lo ficou no passado e o conceito tornou-se, pasmem, obsoleto. Nosso momento é único e as mudanças nunca foram tantas e ocorreram tão rapidamente.

Em pouquíssimos meses adentramos em um mundo, desta vez, batizado no seu acrônimo em inglês, de BANI – frágil, ansioso, não linear e incompreensível e, como antecipa este último termo, não tenho a pretensão de compreendê-lo neste artigo, mas sim trazer a minha opinião sobre o que acredito serem as novas formas de relação de trabalho diante das constantes mudanças que estamos atravessando, muitas delas trazidas pelo rápido avanço tecnológico.

Acrescento o conceito de Zygmunt Bauman (1925 – 2017) sobre a relação liquida da sociedade moderna, onde essa liquidez gera a desconstrução de tudo que vimos até hoje. E não se trata de uma questão de escolha. A sociedade está se transformando rapidamente e cabe a cada um de nós buscarmos essa nova adaptação.

Pois bem, a mais evidente e impactante mudança que vivenciamos nos últimos tempos sem dúvida alguma está diretamente relacionada com o home office ou trabalho remoto, que difere substancialmente do teletrabalho trazido pela reforma trabalhista de 2017. A conversão do trabalho presencial pelo remoto foi tão rápida e abrupta que nossos legisladores sequer tiveram tempo de prevê-lo, mas reagiram editando uma medida provisória que versou sobre o tema, ainda que de forma bastante simples, mas capaz de equilibrar a balança e regular, mesmo que pontualmente, as dúvidas e incertezas que essa nova modalidade de trabalho nos apresentou.

O home office se mostrou bastante eficiente na continuação do trabalho em meio a crise sanitária. Aproveitando-se de uma escalada nas ferramentas tecnológicas disponíveis, o trabalho remoto tem a capacidade de conferir ao colaborador uma maior flexibilidade, comodidade, qualidade de vida, conforto e maior possibilidade de administração do tempo e contenção de gastos, dentre outros fatores importantes.

Ocorre que as empresas estão cada vez mais questionando se esse modelo é realmente o ideal. Em primeiro lugar isso se deve ao fato de que o home office foi adotado às pressas, sem muito planejamento, e “segurou a onda” em um primeiro momento de necessidade imperiosa de distanciamento social. Em segundo, essa mesma distância gera, na maioria dos casos, dificuldade no engajamento dos colaboradores e na comunicação destes com a empresa pois, para a maioria, a implementação de recursos necessários para tratar o problema, principalmente ligados a comunicação, não é uma realidade, principalmente sob o ponto de vista financeiro. Além do mais, uma boa parte dos líderes simplesmente não está preparada para o desafio. Não se trata de encontrar culpados, mas talvez o modelo híbrido, caracterizado pelo trabalho desenvolvido parte na empresa e parte em casa, seja a verdadeira solução.

No entanto, não restam dúvidas que o trabalho remoto veio para ficar. E isso é bom para todos, empresas e trabalhadores. E para as cidades também, já que com a desnecessidade do deslocamento podemos ser mais produtivos, o trânsito diminui e a poluição idem.

Nesse mesmo passo, as novas gerações têm trazido demandas muito bem definidas com o objetivo de alinhar o dia a dia do trabalho com os estudos, o desenvolvimento pessoal e o lazer, o que vai de encontro com jornadas de trabalho reduzidas e flexíveis, maior autonomia e, principalmente, o trabalho voltado para resultado.

Por essa razão, as empresas tem se esforçado para oferecer aos seus colaboradores soluções em qualidade de vida que atendam essas expectativas e as auxilie na retenção de talentos. Essas soluções vão desde a oferta de benefícios flexíveis até programas de meditação, passando pelos tradicionais convênios médicos e odontológicos.

Faço aqui uma pausa para lembrar do papel dos sindicatos que, após a reforma trabalhista, tem perdido consideravelmente sua relevância, sendo que a ressignificação de sua atuação é urgente, modificando sua abordagem com o trabalhador e demonstrando entrega real de valor na sua forma de agir.

Com tantas transições, a carreira em si, com em seu conceito clássico e linear, também será (ou já estão sendo) desconstruída. Voltaremos a nossa atenção a carreiras mais abertas e flexíveis, o que muda completamente a forma de gerenciá-las. Deveremos ser mais criativos e “antenados” nas mudanças cotidianas, o que inclui uma maior absorção do conteúdo de tudo que está se fazendo no mundo. O trabalho, assim, fará parte de nosso cotidiano, seja dentro de um escritório, na frente do computador ou repousando em uma praia de frente para o mar.

Logicamente, as mudanças nas relações de trabalho também advieram das pressões econômicas, das constantes necessidades de se melhorar a produtividade e da ideia de se fazer mais com menos. Ao mesmo tempo que vivenciamos uma nova economia, a Revolução 4.0 avança como um rolo compressor sobre os menos preparados. E é por essa razão, em um contexto social mais amplo, que essa relação precisa ser ressignificada.

Junto com os novos modelos de negócio, vez ou outra debatemos sobre a possibilidade da tecnologia “roubar” os empregos e substituir a mão de obra humana. Em parte, acredito que é uma premissa válida, já que os postos de trabalho meramente braçais e repetitivos tem uma grande chance de realmente serem extintos. Mas não sou adepto do conceito de substituição plena e aumento de desemprego por essa razão. Ao longo da história o ser humano soube se reinventar e adaptar-se a realidade do momento.

Como tudo na vida, essa mudança exige atenção e cuidado. Os riscos da chamada “uberização” existem e a precarização deve ser tratada de forma crítica, principalmente para o elo mais fraco da sociedade.

Outra tendência que vale a pena conhecermos é o chamado “compartilhamento de cargos” ou job sharing em seu termo original, praticado nos Estados Unidos e parte da Europa e que já é adotado por algumas empresas por aqui, principalmente multinacionais. Nele, duas pessoas que ocupam cargos idênticos dividem a sua jornada por igual, sejam por períodos ou dias, recebendo o salário proporcional para isso. Justifica-se essa prática conferindo ao colaborador mais tempo livre, que pode ser dedicado a família ou outros projetos pessoais e/ou profissionais, garantindo igualmente uma melhor qualidade de vida no trabalho e fora dele.

Dessa forma, é certo que o futuro do trabalho trará relações menos rígidas, mais flexíveis, menos controladas e voltadas ao bem estar do trabalhador. A tecnologia continuará derrubando barreiras e encurtando as distâncias, mas devemos nos atentar ao risco de superficialização das relações humanas, que é o verdadeiro desafio atual.

De agora para o futuro, haverá uma maior necessidade de aprimoramento dos estudos e expertises, do desenvolvimento dos softs skills e demais habilidades pessoais, além de compreender os benefícios e uso produtivo da tecnologia.

Outrossim, nunca antes na história o ser humano recebeu a possibilidade de gerir sua carreira como bem entendesse, assumindo os ônus e os bônus da sua trajetória. Cabe a cada um de nós escrever nosso próprio destino.